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SOBRE EXPERIENCIAS INESQUECIVEIS

July 2nd, 2010

O conteúdo desse post é meio antigo, mas eu levei um tempo para conseguir toda essa verbalização (Ou o seu equivalente escrito).

Há algum tempo, eu estava papeando com um grupo de pessoas num local onde eu trabalhava e alguém levantou o assunto “Experiências Inesquecíveis”. Eu não me manifestei e mantive minha opinião para mim, o que gerou algumas piadinhas e acusações do tipo: alguém que não curte a vida, que não tem experiências memoráveis e que ainda é virgem.

Obviamente, essas acusações eram mentirosas, mas achei melhor ficar na minha, de boca fechada.

Fiz isso pelo seguinte, o papo era claramente alegre, carregado de sentimentos sobre como a vida é boa, apesar dos seus pesares. Se eu abrisse a boca, eu seria sincero, e, provavelmente, iria destruir aquela alegria toda.

Não se enganem, não foi só altruísmo meu. Naquele tempo, eu não queria compartilhar aquela que era, e ainda é, a minha experiência mais inesquecível, mas farei isso agora.

Antes de mais nada, convém esclarecer que eu possuo lembranças extremamente felizes. Há na minha vida momentos maravilhosos cuja simples lembrança basta para revigorar minha fé na vida e encher meu peito de um agradável calor sentimental.

Existem os clichês como o primeiro beijo (que foi ótimo, apesar da falta de experiência), ou a primeira relação sexual (que até foi com uma pessoa “especial”, mas nesse caso a inexperiência de ambas as partes atrapalhou. As experiências futuras – até com essa mesma pessoa -  demonstrariam que poderia ter sido melhor. Ainda assim foi uma experiência ótima); passando por outras como quando eu vi meu nome na lista de aprovados do vestibular com o meu irmão (essa foi uma das melhores); ou ainda algumas aparentemente mais simples, como quando a Vitória, na época um bebezinho, adormeceu no meu colo vendo TV (também uma das melhores experiências da minha vida).

Entretanto, essas são experiências que demandam algum esforço para entrar na minha mente. Eu preciso pensar nelas. A minha experiência mais inesquecível não funciona assim. Ela entra na minha mente sem ser convidada.

No começo, ela vinha sempre, várias vezes ao dia. Com o tempo, ela foi ficando mais esporádica, menos frequente, e causando um impacto cada vez menor, mas mesmo hoje ela ainda aparece e ainda é desagradável. Sim, foi uma das piores coisas que eu já vivi. Vamos aos fatos.

Aconteceu em 14 de Dezembro de 2006, foi o dia em que o meu pai morreu, em parte e pela primeira vez. Isso já seria traumático, mas houve certos requintes que tornaram aquilo ainda pior.

Não vou contar todos os detalhes já que só isso daria um post enorme e extenso, mas resumindo, meu pai estava vivo, e no instante seguinte, ele desligou. Simples assim! O coração parou, a respiração parou, e ele caiu, em casa. Foi como se houvessem removido as pilhas, ou desligado da tomada.

No meu Curso de Formação de Condutores (Sim, aquele obrigatório para conseguir a CNH), o material sobre primeiros socorros era bom, e o meu interesse por coisas estranhas havia me levado a aprender mais. Não conheço muito, mais foi o suficiente para prorrogar a morte definitiva dele por uns 10 meses.

Não, falar em morte definitiva não é pleonasmo, não nesse caso. Nessa ocasião, ocorreram danos neurológicos que bagunçaram a memória e o raciocínio dele. Para mim, boa parte dele morreu naquele dia. E ainda nem é essa a minha tal “experiência inesquecível”. Tal experiência, da qual eu ainda não falei,  é apenas uma parte de todo desse evento

Durante as manobras de ressuscitação (massagem cardíaca e respiração boca a boca), é comum é certo que as costelas da vítima serão quebradas para que se consiga espremer o coração e circular o sangue. Muita gente não sabe disso porque esquecem de avisar nas instruções. Eu mesmo achava que isso poderia acontecer apenas eventualmente.

Então, essa é a minha “lembrança inesquecível”, a sensação das costelas do meu pai sendo quebradas por mim (foram 8 fraturas e alguns “trincados”). É algo que não dá para descrever, mas que eu senti na palma das mãos. Cada vez que eu lembro disso, eu volto a sentir. É como aquela síndrome do membro fantasma que acomete aleijados.

Só que hoje, se hoje, isso não incomoda tanto, na época, eu sentia um nó na garganta, um frio na barriga e uma sensação de falta de chão a cada relembrada, e elas eram muito frequentes, ocorriam várias vezes ao longo do dia, logo antes de dormir e até me acordava, raramente.

Uns 10 meses depois (Outubro de 2007), todo o evento se repetiu, mas não deu para adiar mais a morte e meu pai se foi. Dessa vez, quando eu agi, eu nem me surpreendi, nem estranhei, só esperei por aquela horrível sensação de costelas se quebrando.

Essa ainda é a minha experiência mais inesquecível, e, eu espero que continue assim, e que nada pior venha destroná-la.

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