Era de manhã quando o barulho dos freios denunciou a chegada da maria-fumaça à estação (como se a visão da coluna de vapor que emanava de sua chaminé já não fosse suficiente para apresentá-la desde antes da linha do horizonte).
Essa maria-fumaça era algo mais. Era algo além de obviedades. Era o próprio sucesso encarnado em metal e madeira. Num típico exemplo do que grandes escritores chamariam de “uma metáfora ruim” ou “uma imbecilidade”.
Enfim, comentários desnecessários a parte, todo aquele sucesso parecia ter chegado naquela estação que nada mais era do que a vida de uma determinada pessoa. Uma pessoa não muito original para criar metáforas, um pessoa que poderia embarcar naquela bem aventurança toda, se estivesse na plataforma para embarcar.
Ao contrário do que pode parecer, as chances não eram tão aleatórias. Na verdade, as chances para que aquele garoto pegasse aquele trem eram bem grandes.
Ele sabia o horário em que o trem chegaria. Fora avisado com bastante antecedência.
Com a mesma antecedência, recebera sua passagem com assento reservado. Ele não só teria direito a embarcar no sucesso, como ainda viajaria na primeira-classe, com todas as refeiçoes e todos bola-gato das belas atendentes que ele pudesse aguentar inclusos no pacote.
Ele também não chegou atrasado à estação, ao contrário do que ocorria em sua vida fora das metáforas em textos de auto-ajuda, ele chegou antecipadamente. Viu quando o ponto preto sob a enorme coluna de fumaça apareceu no horizonte. Viu a aproximação do trem até o momento em que seus ruídos ficaram bem nítidos. E foi então que aconteceu.
Sem qualquer chance de antecipação, aquele pobre desgraçado foi acometido de um desarranjo gastro-intestinal sem precedentes na literatura médica.
Desesperado, correu o mais rápido que sua situação permitia, e, mal chegou ao sanitário, aquilo, que chamarei carinhosamente de “chuva de chocolate” (para manter o lirismo), rompeu a resistência do seu terceiro olho, caindo em profusão naquele cubículo.
Tamanho feito, capaz de desesperar o mais heroico dos faxineiros de cinema pornô, além de criar uma lambança (que interditaria aquele estabelecimento pelos próximos meses), também sugou todos os recursos disponíveis daquele garoto, sua energia, seu vigor, sua vontade de viver e o seu tempo.
O trem esperou, por um tempo, mas depois se foi. Outros vieram e se foram, mas ele continuou naquele trono, recuperando seu fôlego e tentando se limpar para, só então, voltar a esperar pelo próximo trem na plataforma.
Ainda que as seqüelas, como o cheiro de fezes que não sai da pele ou as hemorróidas do tamanho de repolhos, denunciem seus apuros do passado, o garoto ficaria feliz por ter outra chance de sair daquela estação no meio do nada.
Nem precisaria ser na primeira classe e nem precisaria ser para algum destino específico.
Entretanto, hoje, ele só estaciona o pensamento nisso em lampejos rápidos. Ele está muito ocupado limpando aquilo que fez.
Depois disso, ele ainda ficará mais um bom tempo passando pomada para assaduras antes de pensar seriamente em sentar em um banco de trem (ou em qualquer outra coisa).

que merda, hein?
É um texto triste, porém não sei porquê não consegui parar de dar risadas.